2 de set de 2010

Análise de risco.

A análise de risco é uma técnica inerente à ACB ex ante, cuja finalidade é medir as incertezas a respeito dos valores de determinado projeto. Dessa forma, tal técnica complementa a análise final de um projeto, considerando-se o impacto no seu resultado final, quando há diferentes valores atribuídos ao fluxo de caixa.
Lapponi (2000) mostrou que "à medida que as projeções pretendam retratar um comportamento futuro, menores são as chances de que estejam corretas", pois, por mais refinados que sejam os cálculos de viabilidade, o caráter determinístico de análise é limitado.
O conceito de risco deriva da incerteza a respeito das condições futuras de um projeto. Entretanto, risco é aplicável a condições objetivas, com base em distribuições de probabilidade, e o conceito de incerteza é subjetivo e derivado das condições de propensão do indivíduo em aceitar ou ser avesso às situações futuras incertas, medidas pela função utilidade esperada do indivíduo (NORONHA, 1987; VARIAN, 2003).
Segundo Matos (2002), a função utilidade esperada do indivíduo pode converter condições de incerteza em condições de risco, conferindo, assim, probabilidades subjetivas a eventos futuros. Caso a função utilidade do indivíduo, tomador de decisões, demonstre neutralidade ao risco, o valor médio de determinado indicador financeiro será suficiente para a tomada de decisão. À medida que elevar a aversão ao risco, questões probabilísticas serão cada vez mais consideradas na análise.
O primeiro passo para lidar com análise de risco é realizar a análise de sensibilidade do projeto. O método consiste em modificar uma variável de cada vez, procurando identificar a sensibilidade do projeto final quando estas são alteradas (LAPPONI, 2000). O método também consiste em determinar o ponto crítico onde a decisão de aceitar ou rejeitar o projeto é alterada, isto é, quando o Valor Presente Líquido (VPL) for igual a zero ou a Taxa Interna de Retorno (TIR) igualar-se ao COC.
Associada à análise de sensibilidade, outra técnica popular de avaliação de risco é a simulação de Latin Hypercube, usada na resolução de problemas estocásticos, nos quais são empregadas variáveis randômicas. O objetivo da simulação é emular, simultaneamente, todas as variáveis sujeitas a riscos, cujas distribuições de probabilidade foram predefinidas. Após várias interações, tem-se a distribuição de freqüências dos possíveis resultados possíveis, em vez de um único índice (PAIVA, 2001; LAW; KELTON, 1991; SANTOS FILHO, 1995).
Clemen (1991) salientou que a eficiência dos resultados de simulação está condicionada à acertada escolha das variáveis sujeitas a risco, assim como às características de risco dessas variáveis, para que, dessa forma, os resultados não tenham algum tipo de viés.
Uma etapa importante na simulação consiste em reconhecer as melhores funções de distribuições probabilísticas que representem as variáveis identificadas como as mais importantes em um projeto.
Para Paiva (2001), há quatro abordagens práticas para determinar a melhor distribuição de probabilidade:
a) Usar introspecção nas experiências possíveis de ocorrências e, a partir desta, gerar a distribuição de probabilidade;
b) Gerar distribuições empíricas a partir de dados históricos;
c) Encontrar aproximações;
d) Enunciar axiomas descritivos a partir de dados históricos.





Referencias

CLEMEN, R.T. Making hard decisions: an introduction to decision analysis. California: University of Oregon, 1991.
LAPPONI, J.C. Projetos de investimento: construção e avaliação do fluxo de caixa. São Paulo: Lapponi Editora, 2000.
LAW, A.M.; KELTON, W.D. Simulation modeling & analysis. 2.ed. New York: McGraw-Hill, 1991.
NORONHA, J.F. Projetos agropecuários. 2.ed. São Paulo: Atlas, 1987.
PAIVA, C.S. Análise financeira do carvão vegetal e do coque da siderurgia mineira no período de 1995 a 1999. 2001. Dissertação (Mestrado em Economia Rural) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG.
SANTOS FILHO, J.I. Otimização de planos de produção em fazendas integradas de cacau sob condições de risco. 1995. Dissertação (Mestrado em Economia Rural) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG.
VARIAN, H.R. Microeconomia: princípios básicos. Rio de Janeiro: Campus, 2003.




Análise de projetos

Um projeto é uma entidade de vida limitada, já que a amplitude pode variar e a avaliação tem grande importância para a decisão de investimentos, para que o agente não incorra em gastos antieconômicos e, ou, mal dimensionados (NORONHA, 1987; WOILER; MATHIAS, 1986).
Para Buarque (1991), a avaliação econômica de projetos consiste em:
1) Ajustar o orçamento do projeto do ponto de vista do empresário, de maneira a transformá-lo em um orçamento econômico, através do uso de preços especiais diferentes dos preços de mercado. A esses preços chama-se preços-sombra e correspondem ao valor que a sociedade atribui aos insumos e aos produtos do projeto; 2) Incluir no orçamento todos os benefícios e custos que, sem incidir no projeto do ponto de vista do empresário ocorrem direta ou indiretamente por causa desse projeto. A esses custos ou benefícios chama-se de economia externa do projeto.

A importância do projeto pode ser avaliada sob diferentes critérios. Tipo: a) critérios em termos correntes que verifica, por exemplo, a rentabilidade simples; o período de retorno e a relação benefício-custo. b) critérios de desconto que levam em conta as relações benefício-custo; valor atual líquido (valor atual líquido por unidade de investimento) e a taxa interna de retorno – TIR (taxa interna financeira de retorno – TIRF e taxa interna econômica de retorno – TIRE, sendo que para o cálculo da TIRE é necessário transformar o fluxo de fundos financeiros (a preço de mercado) em fluxo de fundo econômico).
Segundo Buarque (1991), é necessário tomar algumas providências no cálculo da TIRE:
1) Eliminação das transferências entre membros da sociedade. Alguns pagamentos que aparecem nos fluxos de custos da análise financeira não representam utilização direta dos recursos da economia, mas simplesmente refletem a transferência do controle sobre estes recursos de um membro da sociedade a outros (por exemplo, pagamento de juros, reembolsos ou empréstimos, atribuições para depreciação, impostos diretos ou indiretos, subsídios) e não representam assim gastos nem benefícios para o conjunto da sociedade.
2) Ajuste nos preços utilizados na elaboração do fluxo de fundos financeiros, que transforme os valores de mercado em valores econômicos. A orientação básica para a realização dos ajustes que transformam os custos e benefícios privados em econômicos consiste em determinar o custo ou o valor de oportunidade econômica, para a coletividade, de cada bem ou insumo do projeto.
3) Inclusão das externalidades. Alguns dos efeitos do projeto sobre o conjunto da economia não exercem influência sobre a empresa, não sendo considerados no fluxo de fundos privado, mas, do ponto de vista econômico, entretanto, têm que ser considerados como economias externas.

Análise custo-benefício (ACB)

Avaliação econômica, também conhecida como avaliação social ou análise custo/benefício, tem como objetivo determinar os efeitos das decisões de investimentos, públicos ou privados, sobre a economia de um país ou de uma região. Em outras palavras, o que se pretende medir são os efeitos de decisões de investimentos sobre o bem-estar dos países, regiões ou grupos sociais atingidos pelos projetos. Nesse caso remetemos nossa analise para o Estado do Acre, por meio da Avaliação da política publica expressa pelo Programa “Acre livre de aftosa”.
A avaliação de projetos, dependendo do nível de abrangência, pode ser enfocada em aspectos financeiro e econômicos ou sociais.
O financeiro diz respeito ao lucro da firma, e o maior interessado é o próprio agente econômico.
Segundo Sang (1988), a avaliação de projetos para a sociedade denota idéia de completa avaliação dos méritos e deméritos, ambos qualitativos e quantitativos, visto que contabiliza informações, estimativas e previsões financeiras, econômicas e sociais. Esta análise leva em conta implicações micro e macroeconômicas, das quais surge o conceito de análise custo-benefício (ACB) econômico ou social, como método de quantificação e medição de custos e benefícios para avaliação de investimentos de abrangência nacional.
O principal problema da Análise de Custo-Benefício é responder se certo conjunto de projetos de investimentos deve ser empreendido e, caso os recursos sejam limitados, que prioridades se deve dar a este elenco de projetos segundo este ou aquele conjunto de critérios. A empresa privada tende a guiar-se por critérios comerciais comuns, a fim de atingir seus objetivos de maximizar lucros.
A ACB difere dos outros métodos de avaliação econômica por valorizar tanto os custos como as conseqüências em termos monetários. Baseia-se na teoria econômica do bem-estar e como tal tem a fundamentação teórica mais sólida, permitindo designadamente comparações com investimentos públicos noutros sectores que não o da saúde. Contudo, a realização de estudos ACB levanta questões de medição bastante complexas, tais como a valorização contingente.
Através da avaliação, procura-se conhecer se o projeto representa uma boa alternativa para os recursos a serem utilizados. Já a avaliação por um organismo de fomento, preocupa-se em escolher, dentre as múltiplas possibilidades de solicitações de financiamento, aquelas que deveriam ser aprovadas, considerando aspectos sociais.
Como sabemos, os recursos são menores que o número de solicitações, por isso a finalidade da avaliação passa a ser:
a) determinar se a empresa terá rentabilidade financeira e capacidade de pagamento que garantam o retorno do financiamento e do capital próprio empregado;
b) determinar se o projeto que solicita financiamento está de acordo com os objetivos macroeconômicos da nação (rentabilidade econômica) e ordená-los de acordo com a sua capacidade de contribuir para esses objetivos.
Nessas condições, busca-se maximizar a diferença entre os valores pagos e os recebidos em determinado investimento.
A fundamentação teórica que embasa a ACB[1] (Análise de Custo Benefício) é a teoria do bem-estar. Noronha (1987, p. 251) relatou que "... a análise custo-benefício de investimentos públicos (diretos ou indiretos) é largamente (mas não unanimemente) reconhecida como um dos ramos mais desenvolvidos da teoria do bem-estar aplicada".
Nos moldes neoclássicos, a origem da teoria do bem-estar está diretamente relacionada com a eficiência econômica, pois, em condições de escassez de recursos, a alocação racional dos fatores é o meio pela qual se pode maximizar o bem-estar de determinado sistema econômico.
Nesse contexto, há três tipos de eficiência: estática, dinâmica e distributiva. Segundo Mattos (1996), há eficiência estática quando existe pleno emprego dos fatores, combinados corretamente a partir da disposição do mercado de pagar por cada unidade marginal do produto e insumo, resultando, dessa forma, no preço de mercado.
A eficiência dinâmica está condicionada a uma taxa de crescimento econômico, definida pela propensão da sociedade em poupar ou investir, contextualizando, dessa forma, o consumo intertemporal desta. A eficiência distributiva, por sua vez, não é alcançada pelo estudo neoclássico, sendo, portanto, atribuição política ou filosófica (WARD; DEREN, 1991).
Surge, então, a definição do critério de Pareto, pelo qual haverá elevação do bem-estar social, se um agente econômico elevar o seu próprio bem-estar, sem, com isso, implicar perda para outro agente, em decorrência de variação nas condições econômicas (SANG, 1988). Assim, segundo Varian (2003), o equilíbrio walrasinano ocorrerá em um ambiente de competição perfeita, onde se encontre o ótimo de Pareto, isto é, não haja mais incentivo a novos movimentos econômicos.
As condições de competição perfeita, no entanto, não são observáveis no mundo real, mas apenas hipoteticamente, pois há imperfeições de mercado, como ausência de simetria nas informações que leva à alocação de recursos não necessariamente ótima.
Além disso, os movimentos dos agentes econômicos afetam outros (de forma positiva ou negativa), o que faz com que o critério de Pareto não seja atingido. Isso decorre da existência de externalidades (efeitos externos) na dinâmica econômica.
Cabe observar que na avaliação privada, os fatores e os produtos em geral são valorados pelo preço de mercado. No entanto, nem todos os preços que se encontram no mercado refletem perfeitamente os benefícios e custos incorridos pela sociedade como um todo. Dessa forma é necessário que se estime os preços sociais dos fatores, bens e serviços.
Segundo Contador (2000), tais efeitos são regras na atividade econômica, o que faz com que a observância do critério de Pareto seja exceção, isto é, em regra, alguns agentes perdem e outros ganham na dinâmica econômica.
Uma tentativa de operacionalizar o critério de Pareto foi o princípio de compensação de Hicks-Kaldor, segundo o qual haverá elevação do bem-estar econômico ou social, caso ocorra movimento econômico cujo resultado implique ganhos maiores para um agente do que perdas para outro, de forma que os ganhos do primeiro possam compensar as perdas do segundo (ganho potencial de Pareto) (MISHAN, 1975; SANG, 1988; SILVA NETO, 1992).
Conforme salientou Mishan (1975), a soma das variações compensatórias (VCs) dos ganhadores, em determinada mudança econômica tem valores positivos, à medida que as soma das VCs dos perdedores seja negativa. Caso a soma algébrica seja positiva, haverá, então, melhoria potencial de Pareto.
Há críticas quanto à aplicação de metodologias de ACB, por serem propostas por organismos internacionais. Para Motta (1988, p. 31):
As críticas baseiam-se, principalmente, no entendimento de que estes métodos ao adotarem como parâmetros os preços internacionais, taxa de desconto maior do que a de mercado, e custo social da mão-de-obra menor que o privado, estariam inviabilizando todo o processo de industrialização brasileiro, via substituição de importação; sem mencionar a inutilidade da teoria neoclássica da qual seus fundamentos são retirados. Argumenta-se ainda, que estes manuais estariam sendo publicados por agência interessadas na internacionalização da economia brasileira, cujo processo seria danoso aos interesses nacionais.

É importante que se tenha em mente um conceito diferenciado para preços de mercado e preço social. Segundo Contador (1981):
"Preços de Mercado" são, por definição, aqueles observados no nosso cotidiano, quer se trate de bens e serviços finais, quer de insumos. Devido à informação imperfeita, estratégia de vendas, custos de transporte, discriminação de consumidores etc., é possível encontrar preços diferentes para o mesmo fator ou produto, num mesmo momento de tempo. Para evitar os transtornos resultantes da pluralidade de preços para um mesmo bem, é costume empregar a média como o preço representativo e, na discussão a seguir, por "preço" subentenda-se o "preço médio", ou "preço esperado".

"Preços Sociais", por sua vez, não são diretamente observáveis, a menos, é claro, que estejamos operando sob condições de concorrência perfeita. Ao contrário dos preços de mercado, que representam os benefícios e custos de oportunidade para as empresas, grupos de indivíduos. Os preços sociais refletem os custos de oportunidade para a economia como um todo (CONTADOR, 1981, p. 56).
Como os preços econômicos ou preços sociais não são observados diretamente via mercado, é necessário que se utilize algum critério ou metodologia de cálculo.

[1] Para fins terminológicos, considere, neste trabalho, ACB como análise para toda a sociedade.

AVALIAÇÃO DE PROJETOS.




Segundo Sang (1988), a avaliação de projetos para a sociedade denota idéia de completa avaliação dos méritos e deméritos, ambos qualitativos e quantitativos, visto que contabiliza informações, estimativas e previsões financeiras, econômicas e sociais. Esta análise leva em conta implicações micro e macroeconômicas, das quais surge o conceito de análise custo-benefício (ACB) econômico ou social, como método de quantificação e medição de custos e benefícios para avaliação de investimentos de abrangência nacional.
A avaliação de projetos de investimento comumente envolve um conjunto de técnicas que buscam estabelecer parâmetros de sua viabilidade. Comumente esses parâmetros são expressos pelo Payback (Pb, prazo de retorno do investimento inicial), da TIR (taxa interna de retorno) ou do Valor Presente Líquido (VPL, resultado dos fluxos de caixas, descontados a data zero pelo custo de capital do projeto e subtraído do investimento inicial) e a taxa de custo-benefício (TCB, valor presente líquido de todos os fluxos de caixa futuros esperados divididos pelo investimento inicial). Porém, poucas são as considerações formais sobre os riscos que envolvem os fluxos de caixa de um projeto. A forma mais comum dá-se com a análise de sensibilidade, que costuma envolver a simulação de resultados para vários níveis de custo de capital e/ou taxa de crescimento de receitas.
Quando o VPL é adotado como parâmetro de decisão, o tratamento matemático formal envolve a determinação do seu valor médio e de sua variabilidade (ou risco, expresso sob a forma de desvio padrão) calculados a valor presente dos fluxos de caixa deste projeto. A obtenção da média não seria um complicador, já que o seu cálculo é simples, resultante da ponderação das outras médias de cada fluxo de caixa. Entretanto, a determinação do risco, conforme Markowitz já havia estabelecido em seu artigo “Portfolio Selection”, publicado no Journal of Finance em junho de 1952, envolveria a consideração da variabilidade de cada fluxo de caixa, mais a covariância, calculada dois a dois, para todos os fluxos. Se imaginarmos que cada fluxo de caixa pode ser considerado resultante de um conjunto de fatores de risco (como preços praticados, quantidades vendidas, custos e despesas), o tratamento matemático convencional seria muito complexo e, portanto, quase impossível na maioria das vezes, já que boa parte dos tomadores de decisão e/ou analistas de projetos não teriam condições de realizá-lo. Uma alternativa a esse problema pode ser expresso através da utilização do Método Latin Hypercube (MLH) ou de Monte Carlo (MMC) no cálculo da variabilidade do VPL obtido no projeto. Este procedimento envolve a utilização de números aleatórios nas simulações, o que pode facilitar acentuadamente os cálculos do risco, ainda mais quando suportados por um programa como o @Risck dotada de linguagem de programação que permite a geração automática dos resultados.

Referencias
SANG, H.H. Project evaluation: techniques and pratices for developing countries. New York: Wilson Press, 1988.
SILVA, I. S. da. Avaliação Econômica do Programa: “Acre livre de aftosa”. 2008.

Evolução da Pecuária Bovina no Acre.

A visão predominante na literatura é a de que a pecuária bovina na Amazônia, em geral, sobrevive mais a custa de especulação da terra e de subsídios governamentais do que em função da sua viabilidade econômica. Entretanto, observa-se um crescimento continuado do numero de produtores e do rebanho bovino na região, nos últimos anos. Mesmo considerando as diversidades de condições políticas e econômicas e mesmo sem ter acesso a subsídios governamentais, pequenos produtores investem na atividade há mais de 30 anos.
Historicamente, a atividade, só se tornava lucrativa, devido ao baixo preço de aquisição da terra, muitas vezes, subsidiada por programas governamentais. Além disso, a venda da madeira extraída na própria área produzia recursos suficientes para pagar o custo da terra, o desmatamento, a queimada, a plantação da pastagem e ainda aquisição de todo o gado necessário para iniciar rebanho. O proprietário, então, usufruía a fertilidade proveniente das cinzas da queimada por alguns poucos anos e depois abandonava a terra (THAMER, 1970). Para Arima (2005) esse processo sofreu pequenas mudanças, já que no Acre, não existe política de apoio a pecuária e a legislação ambiental proporciona impedimentos ao desmatamento e queimadas, cuja finalidade seria a expansão das pastagens.
Segundo Margulis (2003), o panorama atual da bovinocultura difere do verificado em épocas anteriores, que eram mais favoráveis à atividade, devido aos seguintes fatores:
- o sobrepastejo já não é tão usual, pois depende da abertura de novas áreas e das queimadas para agregar as cinzas e, com isso proporcionar o alto desempenho do pasto. Além disso, o processo de abertura de novas áreas esbarra-se com a pressão imposta pela sociedade, fato decorrente do alto grau de apelo internacional em defesa das áreas ambientais remanescentes e da preocupação com as questões referentes às alterações climáticas.
- é cada vez mais difícil a obtenção de capitais a juros baixos provenientes de planos e incentivos governamentais, seguindo o mesmo caminho da política agrícola nacional.
- a expansão da fronteira agropecuária no estado do Acre, segundo Homma (1993), não pode ser explicada pelos lucros obtidos com especulação da terra, pois o risco decorrente da invasão de posseiros, a distância aos principais centros urbanos e a inexistência de preços excepcionais de produtos agrícolas produzidos na região[1] interferem no preço da terra.
- É fato que os custos com insumos destinados ao manejo mineral, profilático e reprodutivo tendem a ser maior em toda a região amazônica, devido ao frete.
Na região Norte, os estados do Acre, Pará, Tocantins e Rondônia, concentram a grande maioria do rebanho regional.
Em novembro de 2005, o rebanho bovino era de 2.298.511 cabeças, distribuído em 18.489 propriedades, das quais 75,4% eram pequenas propriedades com até 100 cabeças de gado. Os sistemas de produção agropecuários têm participação predominante na economia do setor primário do Acre, sendo, também, as atividades de maior impacto social e ambiental no meio rural do Estado (Valentim e Andrade, 2003; Acre, 2006; Oliveira et al., 2006; IBGE , 2006a; IBGE, 2006b).
Um dos principais fatores que favorece o crescimento da pecuária local está relacionado ao fato de ser mais lucrativa que em outras regiões. Para Hecht (1985) isso é possível devido aos baixos preços da terra e a maior produtividade das pastagens nos principais centros pecuaristas do Estado e da região Amazônica, em geral.
Segundo Hecht (1985), a pecuária de baixa produtividade, provavelmente está associada aos seguintes fatores:
- especulação de terras em novas fronteiras agropecuárias por meio de plantio de pasto sem limpeza apropriada do solo, a não ser, desmatamento e queimada, e baixa adoção de tecnologia de criação animal;
- inadequada ocupação de terras de baixo potencial agropecuário, especialmente em regiões com alta pluviosidade e solos pobres; e
- contínua degradação das pastagens resultante da compactação do solo, do esgotamento de nutrientes e do uso de gramínea pouco adaptada à região. A ocupação de terras de baixo potencial agrícola é especialmente preocupante, pois gera impactos ambientais e não produz retornos econômicos e sociais expressivos.
Segundo estudos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – CEPEA (2002), o retorno estimado sobre o investimento na pecuária nas principais regiões produtoras da Amazônia em criações em larga escala (5 mil animais) é significativamente maior do que na região Centro-Sul do Brasil. Por exemplo, a taxa média de retorno do investimento no sistema de cria, recria e engorda em larga escala nas principais regiões produtoras da Amazônia (lucro líquido sobre o patrimônio de 4,6%) é de 35% maior do que no Centro-Sul do Brasil (lucro líquido sobre patrimônio de 3,4%). Outros sistemas de criação em larga escala também são significativamente mais lucrativos. Os sistemas de média escala, com apenas 500 animais, também apresentaram o mesmo padrão de lucratividade e retorno do investimento das criações de larga escala, mas não mostraram diferenças significativas entre Centro-Sul e Amazônia em nossa análise (CEPEA, 2002).
De fato, o retorno sobre o investimento na região pode ser ainda mais atrativo na Amazônia considerando o potencial de valorização da terra. Por exemplo, foi estimado que a taxa interna de retorno do investimento em pecuária, considerando a valorização da terra na Amazônia chega a ser 34% maior que a taxa de retorno sem incluir a valorização da terra (respectivamente 15,5% versus 11,5%). Portanto, a maior lucratividade da pecuária na região estimula investimentos no setor (CEPEA, 2002).
As principais vantagens são resultado do baixo preço da terra que permite a produção com um investimento relativamente pequeno. Entre 1970 e 2000, o preço praticado na Amazônia, foi cerca de cinco a 10 vezes mais baixo que em São Paulo. Em 2002, tais preços equivaliam de 35% a 65% do preço praticado no Centro-Sul (FALESI, 1986; ARIMA, 2005).
O principal custo da pecuária para a grande maioria dos fazendeiros no Acre é o preço da terra na região. Outros insumos para produção pecuária como arames para cerca, maquinário e medicamentos, são mais caros na Amazônia. Porém, esses insumos correspondem a apenas 15% a 20% dos custos totais decorrentes do uso de um modelo extensivo de criação (ARIMA, 2005; UHL, 1996).
Cabe considerar que no Centro-Sul a agricultura é praticada com maior eficácia e produtividade (mecanizada), sendo inclusive, utilizada as áreas de pastagens. Esse uso alternativo para as áreas de pastagens é que eleva o valor da terra nessa região.
Considerando que no Acre, o uso alternativo das áreas de pastagens é relativamente baixo, implica numa pratica de preço menor da terra que a presente em outras regiões. Pode-se dizer que no Acre, tal preço é determinado apenas pela expectativa de lucratividade da pecuária de corte que, em geral, é menor que a lucratividade da agricultura mecanizada.
Considerando que o período de chuvas na região tem durabilidade de tempo e freqüência maior que em outras regiões produtoras, isso favorece a existência de uma “pecuária verde”, caracterizada principalmente pelo fato do rebanho ser alimentado com pastagens naturais e não ração alimentícia como acontece em outras regiões do Brasil. Cabe ainda destacar que em toda a região não ocorre as chamadas geadas, que podem afetar a produtividade do pasto.
Assim, uma boa produtividade aliada ao menor preço das pastagens e da terra, é suficiente para compensar os menores preços recebidos pelo gado na Amazônia; isto é, os produtores conseguem obter maior retorno pelo investimento do que no Centro-Sul.
Segundo Veiga (2004), no Acre, o acesso à atividade é relativamente fácil, inclusive do ponto de vista da ocupação histórica local. O acúmulo de capital por meio da exploração madeireira permite que este seja investido na pecuária.
O Estado do Acre, atualmente, segundo a classificação oficial da Fundação IBGE, encontra-se subdividido em cinco microrregiões homogêneas, totalizando 22 municípios, com uma área de 152.581 km2 e a população estimada em torno 655.385 habitantes (IBGE, 2007). As cinco microrregiões são: Brasiléia, Cruzeiro do Sul, Rio Branco, Sena Madureira e Tarauacá, conforme disposto na Tabela 16.
Observa-se que, mesmo a microrregião de Rio Branco sendo a quarta em extensão territorial, apresenta-se como primeira em área de pastagem e em número populacional, possivelmente em função de nesta microrregião estar presente o centro administrativo do estado, a capital acreana. Cruzeiro do Sul apresenta a segunda maior população, seguida de Tarauacá, Brasiléia e Sena Madureira.
O crescimento da participação Acreana em relação ao rebanho da região norte, em 1995 era de 2,5% do total do rebanho da região. Em 2005 tal participação era de 5,6%. A taxa geométrica de crescimento anual (TGA) foi de 15,56 % e a taxa de crescimento acumulado (TA) foi de 390,67%, no período de 1995 a 2005 (Figura 8, Tabela 8).
No mesmo período, a TGA e o crescimento acumulado do rebanho bovino foram de 7,26% e 116,28% na região norte e Amazônia Legal e de 2,31% e 28,57% no Brasil, respectivamente.
O crescimento acentuado do rebanho observado entre os anos de 1995 a 1999 e 2000 a 2005 (Figura 1) foi obtido pela da utilização dos dados disponíveis no IBGE por meio do Censo Agropecuário, entre 1995 e 1996, e a pesquisa da Pecuária Municipal, realizado ano a ano, o estabelecimento do Cadastro de Propriedades e do Rebanho Bovino Vacinado contra a Febre Aftosa, pelo IDAF, entre 2000 a 2005, resultando na construção de bases de dados que permitiu determinar, com maior fidelidade, o rebanho bovino do Estado.
A taxa de crescimento anual (TGA) do rebanho bovino e a taxa acumulada (TA) para os períodos de 1995 a 1999 (15,25% e 103,37%) e 2000 a 2005 (14,34% e 95,40%), no estado do Acre são superiores às taxas da região norte e do Brasil. Isso mostra que houve aceleração no processo de crescimento do rebanho bovino no Acre, sinalizando uma tendência de maior expansão da pecuária e de maior pressão de desmatamento. O rebanho bovino na regional de Brasiléia apresentou uma TGA de 7,15%, com um crescimento acumulado (TA) de 41,27% no período de 1995 a 1999, sendo que para o período de 2000 a 2005 a TGA quase que dobrou para 13,74% e o crescimento acumulado (TA) foi de 90,35%, bem próximo à média estadual. Já a microrregião de Rio Branco apresentou uma TGA 21,68% no mesmo período (1995 a 1999) com um crescimento acumulado (TA) de 166,72%, sendo superior a media estadual. No período de 2000 a 2005 a TGA foi de 16,57% e a TA de 115,20% de maneira que a participação, de um período para o outro, reduziu-se, ficando abaixo da média estadual. Nas demais microrregiões o crescimento do rebanho bovino diminuiu e a taxa de crescimento continua sendo menores que a media estadual.
Entre 1995 e 1999, os municípios de Bujari, Plácido de Castro, Acrelândia, Assis Brasil, Mâncio Lima, Porto Acre, Rodrigues Alves, Rio Branco e Senador Guiomard apresentaram TGA acima da média do Estado (15,25%). Já no período de 2000 a 2005 os municípios de Brasiléia, Xapuri, e Manoel Urbano, apresentaram taxa de crescimento acima da média do Estado, sendo que dos municípios citados no período anterior (1995 a 1999), apenas Acrelândia, Assis Brasil, Bujari, Rio Branco, Senador Guiomard e Mâncio Lima mantiveram TGA acima da média Estadual (TGA de 14,34%). Os municípios de Sena Madureira, Rodrigues Alves, Porto Acre e Plácido de Castro apresentaram taxa no período de 2000 a 2005 foi inferior a media estadual, ou seja, a representação no crescimento estadual reduziu-se no período citado.





 


[1] Cabe destacar que o preço da arroba bovina produzida no estado do Acre, assim como em toda região amazônica é cerca de 20% menor que na região Sul e Sudeste (HOMMA, 1993).







ACRE. Instituto de Defe sa Agropecuária do Estado do Acre.  Cadastro de Propriedades e do Rebanho Vacinado contra a Febre Aftosa na Campanha de novembro de 2005.  Rio Branco, AC: Idaf. 2006. np.
ARIMA, Eugênio. Pecuária na Amazônia: tendências e implicações para a conservação ambiental./ Eugênio Arima; Paulo Barreto; Marky Brito. – Belém: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, 2005.
ARIMA, H.K. Carne na cesta básica, mas falta cortar tributos. CTC TecnoCarnes, Campinas, v. 6, n. 6, p. 49, nov./dez. 1996.
CEPEA – Centro de Estudos Avançados em Economia.Economia da pecuária de corte na região norte do Brasil. ESALQ/USP. Piracicaba.2002.
FALESI, I.C.; VEIGA J.B. O solo da Amazônia e as pastagens cultivadas. In: ____. Pastagens na Amazônia. Piracicaba: FEALQ, 1986. p. 1-26.
HECHT, S. B.; Environment, development and politics: capital accumulation and the livestock sector in eastern Amazonia. World Developmente, v. 13, n. 6, p. 663-684.1985.
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HOMMA, A.K.O. Expansão da fronteira agrícola na Amazônia: lucros decorrem da especulação ou do processo produtivo? In: ____. Extrativismo vegetal na Amazônia: limites e oportunidades. Belém: EMBRAPA-Amazônia Oriental; Brasília: EMBRAPA-SPI, 1993. p. 121-136.
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REFERÊNCIAS